O protagonismo de organizações indígenas na estruturação da cadeia produtiva da castanha-da-amazônia no estado de Roraima, Amazônia brasileira

Palavras-chave: Bertholletia excelsa, Wai Wai, Yanomami, organizações indígenas

Resumo

Roraima é o estado brasileiro com menor produção de castanha-da-amazônia entre aqueles onde há ocorrência da espécie. Com uma área notavelmente menor que os demais estados da região e diante da ocorrência de castanhais restritos à porção centro-sul do seu território, a produção dessa castanha em Roraima aparece pequena nas estatísticas oficiais. No entanto os dados oficiais, além de ignorarem a quantidade de castanha escoada sem controle para outras regiões, desconsideram a importância econômica, social e histórico-cultural que esse produto pode ter para as centenas de famílias que vivem de sua produção no estado. De acordo com um mapeamento da cadeia produtiva da castanha realizado em Roraima, foi possível construir um retrato da situação de sua produção e comercialização nos anos de 2013 e 2014, quando se formou uma articulação em prol da estruturação dessa cadeia no estado, especialmente no tocante à produção oriunda dos povos indígenas Wai Wai e Yanomami. Embora os indígenas Wai Wai comercializassem a castanha há mais tempo, com mais organizações de apoio e uma cadeia mais estruturada, tanto eles como os Yanomami tinham a maior parte desse apoio direcionado à produção de castanha. Isso explica o fato de a comercialização ter se mostrado como sendo o elo mais frágil e com maior demanda de investimentos. Sendo assim, diante do potencial produtivo das Terras Indígenas e da maior valorização da atividade e do próprio produto, a falta de planejamento para a coleta e a venda coletiva, assim como a necessidade de investimentos em infraestrutura de escoamento e beneficiamento, apresentam-se como importantes gargalos à organização dos povos indígenas em torno da cadeia produtiva da castanha-da-amazônia em Roraima.

Biografia do Autor

Julianna Fernandes Maroccolo, Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa)

Mestre em Ciências de Florestas Tropicais pelo Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia. Engenheira Florestal pela Universidade de Brasília. Consultora no projeto “Estruturação do Observatório Castanha-da-amazônia” pelo Instituto Internacional de Educação do Brasil.

Lúcia Helena de Oliveira Wadt, Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa)

Doutora em Genética e Melhoramento de Plantas pela Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz. Pesquisadora da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária, na Embrapa Rondônia.

Janaína Deane de Abreu Sá Diniz, Universidade de Brasília (UNB)

Doutora em Logística e Desenvolvimento Sustentável. Docente no Programas de Pós-graduação em Meio Ambiente e Desenvolvimento Rural e em Sustentabilidade junto a Povos e Territórios Tradicionais na Universidade de Brasília.

Kátia Emídio da Silva, Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa)

Doutora em Ciências Florestais pela Universidade Federal de Viçosa e Universidade de Toronto, Canadá. Pesquisadora da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária, na Embrapa Amazônia Ocidental.

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Publicado
2021-06-02
Como Citar
Maroccolo, J. F., Wadt, L. H. de O., Diniz, J. D. de A. S., & da Silva, K. E. (2021). O protagonismo de organizações indígenas na estruturação da cadeia produtiva da castanha-da-amazônia no estado de Roraima, Amazônia brasileira. Interações (Campo Grande), 22(1), 19-35. https://doi.org/10.20435/inter.v22i1.2816